Sempre soube que encontraria muito o tema dos relacionamentos amorosos e da sexualidade no trabalho como psicoterapeuta. Relacionar-se é difícil e o sexo um grande tabu.
Eles continuam sendo os assuntos mais requisitados, mas depois da pandemia vejo aumentar a frequência de um outro, algo aparentemente inofensivo: a dificuldade para dizer “não”.
Poderíamos pensar que isso também está sob os muitos conflitos do amor romântico. Mas não se trata de maridos que não resistem aos pedidos de suas esposas, não.
Este padrão surge na miríade de outros sintomas das crescentes doenças do trabalho.
Informações de 2024 do Ministério da Previdência Social mostram que o Brasil registrou mais de 470 mil afastamentos devido a alguma doença mental.
Nesta coluna da edição anterior escrevi como uma emoção pode afetar nossa relação com as tarefas em relação a produtividade e esbocei que riscos para problemas dessa natureza podem ser externos – de um ambiente do trabalho tóxico – e ou internos – relativo ao nosso vínculo com o trabalho.
Voltando ao tema, a dificuldade de dizer não aparece justamente em ambientes de trabalho, mas não exclusivamente em razão dele.
Perante o desafio de nos relacionarmos com pessoas, moldamos nossas ações conforme as necessidades mais básicas de sobrevivência emocional.
Somos definidos como animais sociais e isso determina muito particularmente os laços que criamos. Uma exigência fundamental para qualquer um de nós é a sensação de sermos amados.
Em geral, conseguimos isso nas primeiras relações mais íntimas (pai, mãe, irmãos e avós), mas parte de nosso senso de valor continua a procurar aprovação fora das zonas seguras por muitos anos à frente.
A hipótese mais comum é que a dificuldade para dizer não pode representar uma busca (não reconhecida) de aceitação por meio de nosso trabalho a partir dos “sim” que distribuímos em exagero.
Nesse jogo, a menor chance de desagradar alguém com um “não” é evitada a fim de que continuemos com a sensação de sermos bem quistos pelo outro. É um exemplo de como uma dificuldade pessoal pode se ligar a outras.
É evidente que esse padrão é algo muito difícil de ser percebido por cada um de nós. Também é difícil identificar que sofremos com uma “dificuldade para dizer não”.
Muitas vezes essas questões escondidas se revelam tempos depois, é comum que as sessões de terapia comecem com demandas muito mais simples, como a insatisfação pelo cansaço acumulado da quantidade de tarefas.
Nesse sentido, nem sempre um emprego apresenta riscos externos evidentes para o desenvolvimento de algum transtorno mental, em muitos casos eles se originam, ou são potencializadas, na relação íntima que estabelecemos com ele.
Você consegue identificar algum fator interessante na maneira com que lida com as exigências de sua função no trabalho?
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