Como percebemos o mundo
Desde antes de Cristo, com Platão, se tem a ideia de que nossos sentidos são enganosos e que não conseguimos enxergar as coisas concretas no mundo ao redor. Essas ideias ganharam força com o filósofo Immanuel Kant no século XVIII, ao afirmar que nossa mente possui filtros que funcionam como lentes para processar a realidade.
Mas foi em Sigmund Freud, no século passado, que isso se tornou bem estabelecido. Ele revelou que desenvolvemos fantasias que sustentam nossa percepção sobre o mundo. Elas funcionam como mediadoras para a realidade crua e, sem elas, seríamos tomados por forte angústia.
A realidade é construída coletivamente
Psicologicamente falando, nossa realidade é formada por fantasias criadas e compartilhadas entre nós desde o início da civilização. Todos os grandes conceitos que regem a humanidade são atribuições de fantasias coletivas bem-sucedidas.
São essas construções subjetivas que nos dão a sensação de viver (mais ou menos) em um mesmo mundo, ainda que entre pessoas de lugares e tempos diferentes.
Inclusive, a definição sobre o que é loucura (doença) e o que é normalidade (sanidade) são interpretações sobre esses sistemas de fantasia. Serão considerados normais aqueles que sustentam ideias sobre si mais comuns do que aqueles que se identificam com as mais exóticas.
Um jovem que se diga forte e inteligente se adaptará à vida muito melhor do que aquele que diz ser o mais esperto de todos e o dono do mundo.
Quando a fantasia se torna perigosa
Acontece que, mesmo as narrativas pessoais mais bem aceitas socialmente, podem representar um risco se forem tomadas ao pé da letra ou de forma exagerada.
É o que vimos acontecer com a divulgação de mensagens que um tenente-coronel da polícia de São Paulo enviou à sua esposa, que faleceu na residência do casal.
Nos registros das conversas, o homem (tido como principal suspeito pela morte dela) revela ser, entre outras coisas, “mais que um príncipe”, “rei”, “romântico”, “provedor”, “soberano” etc. Essas afirmações diferem muito das acusações que ele recebia da própria esposa, de ser violento, autoritário e possessivo.
A crença profunda de que ele era tudo aquilo que dizia serviu como um terrível verniz para a violência.
O risco invisível das narrativas sociais
São inúmeros casos no Brasil em que a opressão surge camuflada atrás de uma suposta natureza do “bom homem” com valores.
Apesar de dependermos dessas narrativas de fantasia para existir no mundo, quando elas se tornam exageradas ou rígidas demais, acabam por se tornar armaduras incompatíveis com o convívio, produzindo sofrimento a partir de diferentes formas de violência.
A fantasia, nesse caso, não servia apenas para organizar a realidade, mas também para oprimir a existência de sua companheira.
Um convite à reflexão
Em última análise, as ficções que nos mantêm também podem nos desumanizar e, por serem coletivas, podem representar verdadeiras ondas de violência social escondidas sob o véu da “normalidade”.
Talvez seja hora de rever nossas fantasias de domínio e posse travestidas de valores tradicionais.
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