Gosto de dizer e lembrar que somos divididos em duas partes: consciente e inconsciente, uma delas controlável e perceptível e outra não.
A todo instante há uma infinidade de informações sendo captadas por nós sem que percebamos e que nos influenciam de uma maneira não perceptível em um processamento quase automático. No universo das propagandas, nosso funcionamento básico é explorado para nos influenciar a comprar ou realizar algo.
Recentemente percebi campanhas incorporadas em propostas quase irresistíveis de novas diversões. No intervalo dos jogos do Brasil na Copa do Mundo pude contar ao menos cinco propagandas seguidas de apostas esportivas (bets).
A dinâmica insistente e persuasiva desse marketing é eficaz em seus objetivos e muitas famílias já não conseguem se divertir só da maneira tradicional.
A reunião com amigos, família, decoração, camisas e bandeira vem sendo acompanhada da prática de apostas. O uso de truques psicológicos para esse tipo de manipulação não é novidade, mas o que vi é diferente, um absurdo inigualável.
Não se trata de publicidade direcionada por um algoritmo a um público específico na tela do celular. O que ocorre nas transmissões são famílias inteiras reunidas na sala, com membros de todas as idades, em momentos de lazer tradicional sendo bombardeadas (sem que de fato percebam de maneira racional) com uma mentira dita de forma muito sofisticada e repetida à exaustão: ganhe dinheiro se divertindo de forma fácil, rápida e segura!
Francamente, é muito difícil conseguir filtrar essa avalanche de estimulação, pois ela se utiliza de avançada persuasão em momentos sensíveis e associados a influências positivas dentro de um pacote aparentemente inofensivo. A forte emoção que senti ao presenciar isso está ligada a situações crescentes de pacientes, amigos e familiares que enfrentam problemas sérios em razão de vício em apostas e do número que ainda é muito subnotificado, mas que já é assustadoramente alto, de casos graves de endividamento familiar, profundo sofrimento mental e suicídios.
Minha opção por me manifestar profissionalmente contra essa crescente tendência no Brasil, também vem de encontro à uma clássica dificuldade do apostador compulsivo: a vergonha. Muitos deles passam dificuldades sem que ninguém perceba, pois o constrangimento os impede de pedir ajuda ou revelar a origem de seus problemas. Nesse ponto, vejo na situação do imenso volume de publicidade das bets como uma forma de fortalecer uma visibilidade mais crítica, impedindo que o problema possa crescer sem que seja devidamente notado.
Mais essa: ao fim de um dos jogos em que o Brasil venceu, ouvi ao meu lado: “que pena que o Brasil não tomou um gol, apostei em 3×1. Perdi”.
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