A dúvida faz parte da experiência humana
Mudar de ideia, pensar duas vezes, voltar atrás, ficar na dúvida, se omitir, se arrepender… Esses são fenômenos normais e diários de todo ser vivente, quer seja numa pequena ou grande ação. Algumas decisões são definitivas, outras não.
A questão é que uma certa dose de incerteza nos constitui como humanos e configuram um quadro normal de nosso funcionamento, balançamos e ponderamos a todo instante acerca de uma infinidade de coisas importantes sobre nós e os outros.
O peso de se apegar demais a uma escolha
Somos feitos de divisões e incertezas e nesse contexto, alguém que evite ou não consiga se permitir o incômodo que a dúvida causa, certamente sentirá o peso maior do preço que decidiu pagar por se apegar demais a uma escolha. Chamamos isso de rigidez cognitiva, uma condição em que alguém (por dificuldade ou escolha) não consegue negociar com a realidade ao redor e carrega um sofrimento por cultivar uma forte ligação com o roteiro da vida que desenhou.
“Ascensão financeira até os 30 anos; ter um corpo escultural; casar jovem; ter filhos mais tarde; a casa própria; o cargo de chefia…”
Metas, expectativas e sofrimento
Os exemplos são vários, clássicos ou modernos, se movem conforme o tempo e nos permitem enxergar que são coisas pelas quais gostamos de nos envolver dramaticamente e, de uma maneira, pagar o preço do sofrimento por não abrir mão.
Os exemplos que citei são metas absolutamente possíveis e configuram o sonho comum a muitos de nós, mas a rigidez cognitiva que faz surgir o sofrimento é enxergar algumas delas como as únicas possíveis e aceitáveis. Utilizando uma metáfora, é como se cada uma delas fossem frutos difíceis de alcançar de uma árvore que estivesse repleta de diferentes opções e que, na impossibilidade da escolha original, recusássemos colher qualquer outra que fosse equivalente.
Quando a realidade muda os planos
O pano de fundo disso tudo é que a realidade se impõe de maneiras pelas quais não temos controle e a ansiedade é um dos sintomas mais comuns na tentativa de antecipar ou controlar elementos externos à nos.
Para pessoas que sofrem com apegos a seus projetos e encaram dificuldade para alcançá-los e também para mudá-los de rota, costumo fazer uma pergunta-teste: questiono se aceitariam, caso fosse possível (com uma medicina do futuro), remover do cérebro a parte em que estivesse localizado aquilo que fortemente almejam e se verem livres do sofrimento que fizesse parte daquele pacote, e a resposta de todos é simplesmente, não.
Reinventar-se também é um sinal de saúde
Isso também é bem conhecido e considerado dentro de uma normalidade: preferimos à dor da qual estamos acostumados a abandonar o projeto que construímos com afinco por tanto tempo, porque esses dramas nos ajudam a definir quem somos.
Em última análise, talvez uma boa medida de saúde seja o desenvolvimento da capacidade de se reinventar e ser capaz de trocar / modificar seus projetos e desejos, mas sem nunca abrir mão de os perseguir.
Como estão os apegos de suas metas preferidas?
















