Outro dia ouvi uma história comovente.
Um marido cuidadoso e dedicado à sua esposa relatava seu luto de uma maneira inconformada; como teria sido capaz de derrubá-la mesmo sendo forte?
Era noite, dentro de um quarto de hospital, ela que já estava em cuidados paliativos precisava ir ao banheiro, e como não conseguia andar, precisava de sua ajuda.
“Ela escapou de meus braços de um jeito inexplicável.”
A queda em si, embora tivesse causado hematomas, não foi o que provocou sua partida.
Apesar disso, ele convive com a repetição dessa cena.
Vejo nesse relato uma metáfora da impotência.
Parte da lamentação desse marido representa um sentimento negativo por não ter podido salvá-la de alguma forma (tanto da queda como da partida).
Outro caso: Um menino sensível que se culpa por não ter conseguido reagir e proteger um cachorro de rua a quem viu ser enxotado com violência por alguém maior que ele.
São muitas as situações em que nos sentimos impotentes: A morte, o passado, a vida dos outros, as catástrofes, a burocracia das coisas, o acaso e a imprevisibilidade….
Muito de nossa história se produz independente de nossa força, gosto ou opinião.
O que sobra então?
Não sei, mas talvez seja por isso que, como raça humana, gostamos tanto de super heróis.
Só para ilustrar, o último filme do Homem Aranha, que ainda está em cartaz, já se tornou a 4º maior bilheteria do mundo.
Desejamos ser heróis de nós mesmos (e para os outros), esperamos poder ser capazes de grandes feitos, de glórias importantes e passagens marcantes.
Essa vontade de potência e poder também aparece em nossa admiração a poderosos e nosso apego fácil a políticos e influenciadores, os veneramos pelos seus pretensos superpoderes e fazemos isso desejando possuir parte dele.
Tamanha é a nossa relação com o desejo de potência (e a consequente falta dela) que a maioria do nosso lamento também carrega elementos disso:
“Ah se eu tivesse mais dinheiro”; “se eu tivesse mais tempo”; “mais pessoas para me ajudar”; “mais reconhecimento”…
Essa lista é interminável e no luto isso é especialmente verdadeiro:
Podemos passar longos períodos imaginando como poderíamos ter agido diferente.
Fazemos isso uma vida inteira, preferimos (inconscientemente) nos culpar ao invés de aceitar que não somos assim tão poderosos.
Afinal, sentir culpa envolve imaginar uma situação em que teríamos verdadeiras condições de evitar algum acontecimento dramático.
Mas a história de nossa vida nos mostra que, na maioria dos casos, não temos e jamais tivemos a força que desejamos ter.
Podemos sonhar com os heróis do cinema, mas devemos sempre reconhecer nossa verdadeira força e seus limites!
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