O final de setembro foi marcado pela notícia de que o presidente Lula assinou uma Medida Provisória que proíbe as casas de apostas, também conhecidas como Bets, e os jogos online no Brasil. Quem conhece o trabalho do Jornal já sabe que sempre nos posicionamos contra esses jogos de azar, independentemente de lado político.
Há alguns anos, se alguém dissesse que um dos concorrentes de uma pizzaria, loja de roupas, salão de beleza ou até de uma faculdade seria um aplicativo de apostas, isso pareceria absurdo. Mas é esse tipo de disputa pelo dinheiro das famílias que estamos vendo.
Quando falamos sobre as Bets, pensamos nas perdas, dívidas e casos de dependência. Mas existe outro lado: o dinheiro perdido nas apostas deixa de ser usado em outras coisas. E é aí que o problema chega até quem nunca apostou.
Pense no comércio do nosso bairro. Quando uma família pede uma pizza, compra uma roupa ou contrata um serviço, aquele dinheiro continua circulando. O comerciante paga funcionários, fornecedores e prestadores de serviços, que também consomem.
Agora imagine parte do orçamento das famílias seguindo para aplicativos de apostas. R$ 20,00 ou R$ 50,00 podem parecer pouco, mas quando milhões de pessoas apostam com frequência, o impacto aumenta. E quem também sente isso é o pequeno comércio.
Estudos realizados nos Estados Unidos encontraram efeitos das apostas esportivas online sobre a poupança e o endividamento, principalmente entre apostadores frequentes e famílias com menos recursos.
No Brasil, pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior mostrou reflexos até na educação. Entre os entrevistados, 34% disseram que precisariam interromper as apostas para iniciar os estudos no primeiro semestre de 2025. Entre quem já estudava, 14% disseram ter atrasado mensalidades ou trancado o curso devido aos gastos com Bets.
Isso mostra que a discussão vai além do futebol. O dinheiro das apostas poderia estar pagando uma mensalidade, levando uma família a um restaurante ou sendo gasto no comércio do bairro.
As Bets estão nas camisas dos times, nos campeonatos, nas transmissões e propagandas. Mas de onde sai o dinheiro que sustenta essa estrutura? Do bolso do consumidor. Do mesmo bolso que compra no mercado, na farmácia, na loja e na lanchonete.
Por isso, defendemos o fim das Bets no Brasil. Não porque a proibição resolverá sozinha o endividamento ou fará o comércio vender mais, mas porque as apostas disputam espaço no orçamento com produtos e serviços que movimentam a economia. O fim das Bets não interessa apenas a quem aposta. Interessa também a quem trabalha, produz, vende e depende de uma economia em que o dinheiro continue circulando. Inclusive aqui, dentro do nosso próprio bairro.
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