Ouvi por alto que os padres não dizem mais “até que a morte os separe” nas celebrações matrimoniais católicas. Não fiquei para ouvir a conversa toda, mas o assunto me deixou curioso e fui pesquisar.
Não encontrei mudanças oficiais a esse respeito e coloquei a questão de lado, mas ela me deixou pensativo sobre a importância que damos ao tempo nas esferas da vida.
Ela aparece quando a medicina nos orienta a mastigar, beber muita água e dormir 8 horas por dia.
Surge também em nossa curiosa tendência de guardar objetos na esperança de que eles se valorizem com o tempo e se tornem clássicos e valiosos.
E com muita frequência, surge principalmente no foco sobre a duração de nossas relações amorosas.
Todos esses exemplos representam como enxergamos o tempo como um grande critério de avaliação.
Talvez façamos uma hipervalorização disso, como se só o tempo fosse um fator que determinasse se algo é bom ou ruim.
É claro que, no caso de casamentos, resistir e perdurar é um grande fator de sucesso de um laço entre duas pessoas, mas vale lembrar que o mundo conhece muitas uniões duradouras que são péssimas (pessoas que estão juntas há muito tempo sem que se tenha qualidade ou respeito mútuo) e que há tantos outros que, embora tenham sido curtos, foram intensos e verdadeiros (Rose e Jack de Titanic, por exemplo).
Esse tema também me fez lembrar uma reflexão que guardei comigo desde que a ouvi: de que a máxima “respeite meus cabelos brancos” não pode ser uma lei absoluta, pois o tempo passa para todo mundo, e na hipótese de alguém ter passado a vida fazendo bobagens, o mero correr do relógio não lhe deveria garantir respeito automático.
Esse apego ao tempo cronológico, como se ele fosse um valor em si mesmo, nos tem feito buscar estender a vida ao máximo e a manter relações afetivas a qualquer custo, revelando uma obsessão pela duração como uma medida maior que o critério de qualidade e da essência.
Portanto, antes de nos preocuparmos com bodas e aniversários, uma boa medida para a nossa tão estimada saúde mental é investir na qualidade de nossas vidas e no capricho de nossas relações, para que, quando o fim da linha chegar (decisão sobre a qual não temos controle), possamos olhar para trás com orgulho e sentir que valeu a pena enquanto durou.
Leia também: O tempo das Relações.
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